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Roque do Carmo Amorim Neto Mestre em Educação pela Universidade Cidade de São Paulo (2008). Especialista em Gestão Escolar pelas Faculdades Integradas de Botucatu (2006) e em Psicopedagogia pela Universidade do Oeste de Santa Catarina (2008). Possui graduação em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2004). Tem experiência na área de Educação, Filosofia, Pastoral Juvenil e Orientação Vocacional. Atualmente estuda Psicologia em Saint Marys College of California, nos Es...
 
 
Publicado em 3/3/2010 05:58:28 | Comentários (1) Share
A hora derradeira...

Chovia intensamente na tarde do último sábado, quando meu amigo Trevor e eu voltávamos do cinema. Faltava pouco para chegarmos em casa, ainda falávamos sobre o filme que acabáramos de ver, quando, em um passe de mágica, vimos um carro na contramão se chocar contra nosso carro, jogando-nos fora da pista. Tudo escureceu…

Acordei na ambulância a caminho do hospital. Pensei em Trevor e tentei olhar para o lado, à procura dele, não consegui me mover. Estava completamente imobilizado. O paramédico que estava ao meu lado apenas disse para eu ter calma que tudo ficaria bem. Temi o pior… Movi os dedos dos meus pés para ver se estava tudo certo, também movi levemente minhas mãos. Estaria mesmo tudo bem? E Trevor, o que teria acontecido a ele?

Ao chegar ao hospital finalmente pude ter certeza de que tudo não havia passado de um susto. Graças ao uso do cinto de segurança e à tecnologia do “air-bag” todos os envolvidos no acidente estavam vivos. O motorista do outro carro, entretanto, estava seriamente ferido.

Como sentia dores pelo corpo, os médicos resolveram que eu deveria ficar de observação no hospital. Nada animador para quem planejava chegar em casa e ligar para o Brasil para falar com a família. Fechei os olhos e procurei me acalmar. Estava consciente de que não havia o que fazer. O jeito era esperar o tempo que fosse necessário para poder voltar para casa tranquilamente.

Uma pergunta cruzou minha mente e tentei evitá-la, mas ela retornou várias vezes, até que me dei por vencido e resolvi encará-la: “E se eu tivesse morrido naquele acidente?”

A primeira e mais superficial resposta que me veio foi a ideia de que de algum modo meu corpo (estranho não dizer “eu”) seria levado para meu país, para junto de minha família. Em seguida pensei em todas as coisas incompletas que eu deixaria, e elas que tanto têm me ocupado de repente perderiam todo o sentido. Respirei fundo e finalmente me permiti pensar nas pessoas que amo.

Meus sobrinhos, minha mãe, minhas irmãs, alguns primos, tios e amigos. Não pela dor causada pelo acidente, mas pela ideia de não mais poder encontrá-los uma lágrima correu silenciosamente. Uma sensação de pânico tomou meu peito quando pensei que não veria meus sobrinhos crescerem, tampouco poderia abraçar novamente minha mãe ou passar horas em conversas intermináveis com meu primo Cláudio, ou ainda ouvir Dirceu Linden dizer: “Amigo, saudades”. E mais do que isto, eu nem mesmo poderia me despedir de todos eles.

Respirei fundo e disse em voz alta: “Ei, você está vivo!”. Olhei ao meu redor procurando algo com que me distrair mas não havia coisa alguma ali, nem mesmo papel e uma caneta. Fechei os olhos novamente e me perguntei: E se eu tivesse a oportunidade de me despedir destas pessoas, o que eu diria a elas?

A princípio pensei que para cada pessoa teria algo diferente a dizer, mas aos poucos fui me dando conta que diria as mesmas coisas para todas elas. Em primeiro lugar eu diria: “me perdoe”. Sim, pediria perdão, porque mesmo amando estas pessoas algumas vezes lhes fiz mal. Em seguida afirmaria: “eu perdoo você”. Esta talvez seria a primeira vez que eu pediria e também ofereceria perdão a elas.

Eu ainda acrescentaria “Muito obrigado!” e cada uma delas certamente lembraria o bem que dividira comigo. Por fim diria “Amo você”, e, sem dúvida alguma, com a voz embargada me despediria “Adeus”. E deles apenas gostaria de ouvir: “Tudo ficará bem sem você, descanse em paz!”. Esta seria uma boa maneira de me despedir de minha família e de meus amigos.

Aquela não foi a minha hora derradeira. Continuo vivo e com a intenção de procurar um sentido em tudo o que me acontece. Do grande susto que foi este acidente automobilístico, a conclusão a que cheguei é que não preciso esperar até a hora derradeira para pedir perdão, perdoar, expressar minha gratidão e também o meu amor.

Peça perdão, perdoe, agradeça e ame hoje, agora mesmo, pois não sabemos o que pode acontecer no próximo minuto.

 

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De: VALÉRIA NASCIMENTO - 9/3/2010

E como é verdade, meu Deus.
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